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February 07 I - InternetLá pelos tempos remotos de 1995, o jovem Mateus Dantas de Paula recebe de presente do Tio uma maravilha: Um modem Sportster USRobotics 28.800kbps, dado como presente para que seu pai possa desfrutar do email recentemente cedido pela Universidade, e que nenhum de nós tinha a mínima noção de como fazer operar. Com um computador ainda rodando windows 3.1, um aplicativo TELNET foi rodado pelo técnico, e inúmeros comandos complexos foram dados até alcançar a tela de EMAIL. nesta, não se podia colocar acentos nas palavras, e escrever até o fim da tela sem apertar ENTER resultava inevitavelmente na sobreposição da linha anterior.
Foi a minha primeira experiência com a chamada INTERNET.
Junto com o enfeitado modem, top de linha para o mercado nacional na época, um horror de livretos, propagandas, "receba 10% de volta", e cds de instalação de navegadores para um tal de "windows 95". Um dos livretos me chamou a atenção, por ser mais instrutivo: "Discover the World Wide Web with your Sportster", logo vi que devia ter um pouco de história no meio. Era o VELHO TESTAMENTO:
Por várias razões históricas, a Internet emergiu como uma fonte de informação enorme e rica acessível apenas através de uma série de interfaces nem-tão-amigáveis-assim. Os comandos básicos para Telnet, FTP, Archie (?), WAIS (??), e até Email (!), são poderosas, mas contra-intuitivas, e o rápido crescimento da base de usuários, resultou em um aumento de indivíduos que nem têm a paciência, nem o desejo de aprender as intricadas interfaces
Isso notavelmente era um problema. Mas existia um fator de impulso para essa nova invenção:
A Internet necessita de um "aplicativo matador". Apenas uma ferramenta, um programa, uma aplicação, que o transformará em um sistema falado demais mas de difícil uso em uma ferramenta altamente manipulável e altamente informativa.
O que a internet TEM no momento é um conceito matador.
Esse aplicativo matador chegou logo com os primeiros NETSCAPE NAVIGATORS da vida, tornando a profecia um fenômeno. Amém.
O que se escondia atrás do jargão técnico da rede, era um instrumento de poderosa força socio-econômica. Enquanto os nerds do CERN que inventaram de verdade a internet esperavam que a rede nova tornasse acessível a biblioteca de Harvard, os investidores viam uma inesgotável fonte de lucros. Uma loja virtual praticamente poderia ter o MÁXIMO DE OFERTA para o MÁXIMO DA PROCURA. É o que se pode chamar de ápice do capitalismo. Puxando a popularização do computador, a internet logo estava lotada de propagandas, jornais, e sites de empresas, que disputavam para ver qual entraria primeiro no código www.minhaloja.com. A disputa ferrenha empacou quando a maioria dos usuários não confiava na internet, pelo fato de que atrás da tela qualquer um virava um ladrão em segundos, e sem controle social nenhum para o deter. Era a primeira etapa de caos estabelecida com o surgimento das novas tecnologias. Os meios econômicos antecipam, e moldam os sociais, sem antes claro haver o velho conflito de classes... a bolha estourou.
Mas alheios aos riscos econômicos, continuavam a se turbinar os meios de conexão, e o transporte ilegal de informações tornou-se lei em uma terra sem leis. O Homo digitalis é uma bruta criatura que rouba, copia, xinga, se expôe, expôe os outros e ameaça. Apesar de não sairem na rua dando dedadas, xingando a mãe ou entrando nas casas sem pedir licença, os usuários pintavam e bordavam na rede, levando ao medo da perda da privacidade e do dinheiro, apesar de todos darem cartões de crédito em restaurantes sem medo de clonagem e não ligarem para câmeras de vigilância. O Leviatã estava solto, com o controle social atrás por um fator nunca visto antes na história.
O retorno a esse modo de vida tribal trouxe, apesar do primitivismo, uma grande qualidade nunca antes vista pelo ser humano: a verdadeira liberdade. Sem restrições sociais ou espaciais, puderam ser formados contatos entre pessoas intangíveis, e distribuição de informação restrita a uma forma incontrolável. De fato, esta deveria ser considerada a principal característica da internet: ser incontrolável.
Isto certamente não foi visto pelos idealizadores e muito menos pelos donos da galinha de ovos de ouro. Mesmo que na China o Google agora cede e aplica a censura por palavras como "Democracia", "Massacre Paz Celestial" ou "Mao Peida na Farofa", o caminho do livre mercado e suas consequências sociais inevitavelmente irão trazer concorrências para este grande sistema de busca, e a censura se tornará insustentável.
A livre troca de idéias em mega escala pode produzir outros monstrinhos, que por incrível que pareça poderá fazer a história se repetir e trazer comportamentos tidos como medievais, como a produção independente artística - e sem o comprometimento da qualidade. Agora é possível o retorno do bardo "faz-tudo", dos poetas, dos artesãos, que não mais precisam se submeter às leis de mercado e da sequência de produção. A interface com a platéia se torna novamente pífia, e com a ajuda da tecnologia, mega.
É como se Leonardo da Vinci pudesse pintar em uma face inteira da Lua.
E falando nele, quem diria, os áridos anos do século XX sem gênios científicos podem chegar ao fim através da Internet. A massificação da informação terá produzido em algumas décadas uma geração sem igual na história. É possível notar como estão precoces as crianças em todos os aspectos, e como suas opiniões são baseadas em um mundo de escolhas sem restrições sociais. Isto pode parecer um tanto quanto utópico, mas a simples possibilidade disto ocorrer já torna os tempos que virão surpreendentes.
Provavelmente o que poderá trazer as maiores mudanças na sociedade com essa nova tecnologia é a chance do sistema político ser incorporado ao mundo virtual. Com os avanços na criptografia é possível implantar a verdadeira democracia em um país onde os habitantes não caibam em um mesmo espaço fechado. Eleições pela internet, referendos, votações de leis, todas podem acabar um dia tornar obsoleta a profissão de deputado, senador, vereador e até mesmo presidente, os intermediários do povo. Obviamente que os métodos de mudança de sistema político não tendem a mudar nem tão cedo...
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