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    May 29

    F - Futebol

    Em qualquer esporte, a disputa inerente a uma condição de "melhor" na peleja, derruba toda ética humana e conceitos que suprimem o confronto. Quando um filósofo francês disse que apredera tudo sobre moralidade e ética no futebol, ele não estava apenas tentando criar uma frase de efeito. Um conjunto de regras que dura praticamente sem alterações os últimos 100 anos e apaixona a maior parte do planeta sem dúvida tem preceitos poderosos, considerando é claro que o último século foi o XX.
    Na verdade o jogo em si depende muito pouco do conjunto completo das regras para funcionar. Talvez esteja aí a maravilha de todos os esportes, que vivem essencialmente da disputa. Em uma praia ou campo de barro, a última das necessidades é o juiz. As linhas de demarcação são tampouco, travessão é luxo, uniformes mais ainda, e a bola nem sempre tem forma tão esférica assim, para que a diversão se complete. Não me vou referir à condição interclassial do futebol, mas sim da anarquia ordenada que se cria durante os jogos, e que por si só é uma maravilha. Os orgulhos pessoais e a vitória são postos de lado, enquanto obviamente se deseja que o jogo em si ocorra. Não raro se observa o cacete comer no centro e alguém levar a bola embora, mas só o incrível fato disso não ocorrer sempre, ou melhor, menos do que o que se esperaria de um ambiente tão não-cartesiano, faz com que se encham de esperança os pacifistas e idealistas, observando um modelo em escala da sociedade, que apesar de viver em conflito constante, alcançam uma ordem superior pelo bem da existência da disputa.

    Talvez tenha sido isso que mostrou a Albert Camus (o filósofo francês) com quantos paus se fazia a sociedade humana.

    E é claro que este comportamento de rua não se restringe ao futebol. Com dinheiro em jogo, gangues americanas disputam territórios com regras acordadas de basquete, e no meu prédio, o vôlei era jogado com desnível de 1,5 metros entre um campo e outro, e um deles era coberto pela fachada do prédio. Regras acordadas equilibravam a disputa, com compensações.


    Mas para o homem bípede, nada é a maior glória que o chute. O ser humano, ao andar já exerce este movimento naturalmente, e qualquer objeto que esteja no caminho é sumariamente lançado pelos músculos mais fortes do corpo humano na direção com algum dos propósitos olímpicos de "mais rápido, mais alto, mais forte", ou simplesmente "mais preciso", que pode dar origem a sorrisos de admiração de estranhos caso o movimento seja esticamente interessante. As razões da origem evolutiva do bipedismo podem intrigar cientistas, mas ele proporcionou no nosso caso o surgimento do futebol. Vários outros esportes utilizam a mão no lugar da bola, o que pode nos fazer perguntar por que então o futebol tem um estilo tão singular e plástico de jogo, o que quer dizer que ao contrário do que acreditam os americanos, é extremamente emocionante. Em primeiro lugar, pela falta de controle que se tem pela bola ao movimentá-la. A mão é em todos os aspectos mais precisa em manipular objetos, e por conseguinte, bolas. O fato de em muitos esportes semelhantes ao futebol mas que se usa a mão (handebol, rugby, basquete) a bola ter a tendência de ser "segurada" por um jogador, e pelos braços estarem na parte mais alta do corpo, é uma tendência natural se formarem "barreiras" de jogadores, intransponíveis a não ser pelo alto, o que favorece jogadores mais altos. Isto é a visão clássica, mas não é tudo - o fato da bola estar presa restringe seu fluxo entre um jogador e outro, já que uma bola segurada por duas mãos raramente será tomada, e o fato do braço necessitar de um movimento circular para atingir a (talvez) mesma velocidade de um chute, faz com que um quarterback precise se afastar para lançar uma bola no futebol americano, o que atrasa enormemente a movimentação, e faz com que grandes espaços percorridos a grandes velocidades sejam característicos do futebol como conhecemos. Em segundo lugar, a raridade do gol o torna um evento único nos tipos esportivos. A emoção distribuída em um jogo de vôlei, com grandes jogadas, tende ao costume pelo seu excesso, e um momento único de alegria logo se dissolve, não tendo tanta importância. O gol é pontual, ele explode incontrolavelmente proporcionando picos de emoção que podem em muitos casos matar os corações que não se adaptam a ele! A dor e frustração no lado oposto é equivalente. O gol assim não pode ser derrubado de seu trono como "O" ponto, capaz de verdadeiramente decidir a glória ou desgraça. O ser humano funciona mais parecido com isso. O momento é registrado, e heróis inusitados surgem, premiando o que parece ser nem sempre o melhor time...

    Trazendo o futebol ao posto maior de esporte aleatório que não incorpora (visivelmente) a probabilidade. Neste mundo imaginário, as zebras sempre estão à espreita dos leões, e não raro conseguem façanhas graças a um momento inoportuno ou à própria imprevisibilidade do juiz. Sendo o futebol um dos esportes mais difíceis em matéria de arbitragem, onde os impedimentos ocorrem por medidas contínuas e não discretas, é um palco fértil para o erro humano. "Melhor é ganhar do adversário na casa dele, com gol contra e com juiz roubando" traduz o sentimento de chacota reservado muitas vezes a times de elite que sofrem derrotas avassaladoras. É realmente uma pena que esta característica tão pitoresca e humana do futebol tenda a ser apagada por formas mais precisas de arbitragem. É um sério atentado a juízes de qualidade, que devido a sua extraordinária capacidade, conseguem ver lances que não querem ser vistos, e organizar a anarquia que todos acham inordenável. É um esporte que antes de tudo, é moral. A condição psicológica do time
    principalmente nos dias atuais, influencia tanto, que beira a espiritualidade. Talvez seja por isso que o Brasil seja a pátria de chuteiras. O futebol é rezado, é invocado, e representado por uma variedade de entidades, conhecidas como Os Deuses do Futebol.

    É a alma desses bípedes chutantes.